segunda-feira, 25 de março de 2013
Testemunhos - II
Esta mulher conheceu-nos já nos últimos tempos... Poucos treinos... Minutos de jogo: quase nenhuns... Mesmo assim, sabe muito bem saber que não é a quantidade de minutos que gravamos nos outros, mas a qualidade e a intensidade de todos os que vivemos...
"Cheguei a este país e estava só... Mas quando cheguei a esta equipa, que me recebeu de abraços abertos, senti que tinha encontrado uma segunda família. Estava num mau momento, mas quando estava a com elas e a jogar, sentia-me muito feliz... Os concelhos, as brincadeiras... nunca vou me esquecer destes momentos...e a nossa treinadora foi uma mãe para mim, ajudou-me a crescer e a ultrapassar os momentos mais complicados da minha vida... Fazia tudo para voltar a trás, para viver esses momentos outra vez... Espero um dia voltar a ver-nos todas juntas...
Está tudo gravado no meu coração... O nome de cada uma... Equipa para sempre."
Testemunhos - I
Acabou de chegar o primeiro testemunho prometido. Veio de onde tinha que vir, do exemplo... da capitã de sempre...À equipa não preciso pedir desculpa por esta analogia... pois toda a equipa o sabe... pois toda a equipa o respeita...A minha eterna capitã... Tive várias, mas todas as outras percebem o quanto esta é especial... Há que dizê-lo sem pudores... Uma guerreira incansável...Um reflexo meu dentro do campo... Uma das que privei 10 anos!!! Consecutivos!!!
Levantaste-me tantas taças... Mas deixaste-me levar para sempre a mais importante: a tua amizade e fidelidade incondicional. Por ti tenho o respeito que guardo por muito poucos...
"Desde à bastante tempo que não escrevo sobre um tema que sempre me emocionou, talvez porque não é apenas um tema, talvez porque nunca foi só um tema mas sim um pedaço enorme da minha vida, um pedaço tão grande e entranhado em mim que todas as memórias vivem e aparecem em todos os momentos do meu dia-a-dia.
Levantaste-me tantas taças... Mas deixaste-me levar para sempre a mais importante: a tua amizade e fidelidade incondicional. Por ti tenho o respeito que guardo por muito poucos...
"Desde à bastante tempo que não escrevo sobre um tema que sempre me emocionou, talvez porque não é apenas um tema, talvez porque nunca foi só um tema mas sim um pedaço enorme da minha vida, um pedaço tão grande e entranhado em mim que todas as memórias vivem e aparecem em todos os momentos do meu dia-a-dia.
Desde que lembro de mim como pessoa, é com uma bola de
basket na mão, calções a bater nos tornozelos e camisolas que nunca me
serviram…a verdade é que foi nesse ambiente que me encontrei, não só em criança
mas mais importante, para o futuro. Nunca os olhares ou comentários me
rebaixarem por ser mais pequena, mais franzina, mais frágil…pois tive quem me
ensinasse que a grandeza vem de dentro, crescemos centímetros quando se trata
de alcançar objectivos…
Já não sou mais uma criança, mas tudo aquilo que passei,
todos os momentos fizeram com que a
minha pessoa se fosse construindo e ficando cada vez mais vincada, forte e
independente. Vivi num ambiente lindo e mágico, onde as minhas colegas eram a
minha família, ainda hoje o são, tal como numa família umas longe outras perto
mas sempre presentes em mim. Hoje olho para cada uma delas e fico com uma
lágrima no canto do olho, todas elas são mulheres, têm objectivos, têm um rumo e
isso deixa-me um sorriso enorme.
Gostava de conseguir voltar no tempo e viver tudo, mas ainda
assim não mudaria um único ponto, porque foi tudo aquilo que passamos, o bom e
o mau, foi cada glória e derrota que me fez encarar a vida sem medo ou receio.
Hoje não sou menos feliz por me ter afastado, por ter
perdido alguns momentos…todos os que passei compensam o que poderia vir…hoje
mantenho algumas das amizades, trato-as como uma relíquia, porque sei o valor
daquelas que sobreviveram aos tormentos das decisões.
Conheci neste longo caminho alguém a quem hoje posso chamar
de irmã, alguém com quem me identifico, um dos melhores presentes que a vida
nos pode dar, uma amiga para toda a vida.
Sei que ajudei muitas a crescer, sempre tentei dar o melhor
de mim, pois sempre quis o melhor para elas…queria olhar para trás e sentir
orgulho em cada uma delas. E por isso empenhei e dedico cada gota de suor a
elas, porque cada uma da sua forma particular foram a força nos meus músculos,
o levantar a cabeça nos momentos difíceis.
Tive também a sorte de ser guiada por uma Mulher, sim com M
maiúsculo. Ainda hoje, sempre que toco no nome dela, é sempre a minha
treinadora, e a minha mãe…o meu peito incha de orgulho por ter sido presenteada
com uma amizade como a dela…aquilo que ela me ensinou não foi basket…aquilo que
ela me ensinou aplico hoje, no trabalho, em casa, na vida…
Hoje posso pôr no meu currículo que tenho espírito de
equipa, poucos sabem o que isso é, mas eu sei e posso orgulhar-me de ter essa
característica. Posso dizer que sim, pertenci a uma grande equipa, feita de
grandes Mulheres lutadoras, liderada por uma Mulher guerreira sem comparação.
Um amor que partilhei com pessoas de quem gosto e respeito,
deu-me amigos, deu-me família, deu-me tudo aquilo que eu podia pedir…mas mais
importante que tudo, deu-me sonhos. Alguns atingidos, outros ainda por
atingir…mas uma das maiores lições que aprendi neste mundo é que enquanto
acreditarmos, o sonho permanece no nosso caminho.
A minha vida é movida por sonhos, objectivos e tentar estar
com quem me percebe e me faz feliz…de tantas medalhas que tenho, o basket
deu-me uma invisível que carrego com orgulho no peito: A Medalha de ouro da
amizade."
Viagem
Quase 2 anos e meio sem desvirtuar uma única linha deste espaço que me foi tão querido… Porquê?
Porque a vida muda e a nossa história muda com ela… E como mudou a minha…
Este foi um espaço criado para falar do lado B de uma treinadora… Um espaço para a mulher que morava dentro dela…
Já não sou treinadora há quase 3 anos.
Mas os textos, as palavras… esses existem amontoadas em folhas de papel… e por lá moram até hoje. Nunca tiveram vida fora delas.
Ao remexer nesse amontoado de vida, debruados com tanta paixão, foi impossível não ser traída pela memória e emergir-me a recordação do meu querido Blog.
“Atrasdeumnome” não é apenas um blog sobre as minhas histórias… Não é apenas um palco egocêntrico de vaidades… “Atrasdeumnome” encerra muitas histórias, dezenas de pequenas histórias, de grandes pessoas, de pessoas importantes para mim.
Aqui foram publicados os primeiros excertos de mais uma grande paixão: o livro «História de uma treinadora que é mulher», mas a mulher já não é treinadora e o livro permaneceu ali, pela metade. Aqui senti o insucesso de algo deixado a meio. Mas a vida não volta atrás e a mulher não voltará a ser treinadora… Logo, o livro não passará de uma intensão, meio revolucionária de outros tempos.
Hoje não reivindico nada… Não sinto aquele fulgor… Apenas sinto que posso imortalizar mais alguns momentos e partilhá-los com aqueles que fizeram a minha história. Os textos que aqui deixarei, foram todos escritos antes de Julho de 2011. Fazem parte de uma vida que já não vivo, mas que foi minha.
Tentarei deixar alguns testemunhos daquelas que foram a minha maior vitória: as minhas pitas. Este sim, testemunhos atuais, não das meninas que vi crescer, mas das mulheres que se tornaram…
Todo o resto, são apenas histórias que ficaram lá atrás. Nada pretendem para além da partilha.
E no final, encerrar um ciclo, e quem sabe voltar a escrever, atrás do mesmo nome, mas dentro de uma mulher profundamente diferente. Não imaginam o quanto…
Deixo também o alerta, pois a minha vida agora é branca e é o branco que eu procuro… A paz… A tranquilidade… A vida já foi madrasta que chegue… Portanto, a todas as pessoas cinzentas que se cruzaram comigo e não gostaram, e ainda não gostam: este é o meu blog e todos os comentários têm que ser aceites por mim para serem publicados, então, não percam tempo comigo… Não escrevam o que não vou publicar… Ignorem-me… Tal como vos farei…
Espero relembrar os dias de sol…
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Ser mitológico
(Este texto andava perdido, deve datar de Dezembro de 2009)
As intrigas ferem-me, não me matam!
As injúrias, as blasfémias, as ameaças… Todos me ferem, nenhum me mata!
Houve tempos, em que os vossos punhais pontiagudos, dilaceravam o meu corpo, mas dele, nem uma gota de sangue jorrava… Via os vossos rostos insatisfeitos… Isso dava-me um poder que não consigo descrever. Foi esse poder, que durante muito tempo me fez acreditar, que não era feita da comum carne dos mortais. Quantos mais punhais craváveis no meu corpo, mais o meu poder transbordava nos vossos olhos. Nunca me perdoastes, por não ter as vossas mãos manchadas com o meu sangue. O meu poder subia, irritantemente…
O meu corpo reagia, petulante, o meu rosto tomava feições de arrogância… Nada foi construído por mim. Tudo nasceu da inconformidade dos vossos olhos, da ausência do meu sangue.
Talvez se tivesse sangrado na primeira facada, talvez não sofresse hoje da ira multiplicada, talvez fosse apenas mais uma mulher na linha do destino, ao ritmo do fado.
Hoje, descobri que estou longe de ser um ser mitológico… Vi as primeiras gotas do meu sangue escorrerem no meu corpo… Não brotaram de nenhuma chaga… Começaram por cair dos olhos…
Sentada em casa, recupero das feridas, longe da minha vida.
Sei que se curarão… Sei que voltarei a não sangrar… Em breve estarei de volta só para ver a insatisfação nos vossos olhos…
Feristes-me! Não me matastes!
Protagonismo?! Nunca o procurei. Vós sempre mo trouxestes de bandeja.
As intrigas ferem-me, não me matam!
As injúrias, as blasfémias, as ameaças… Todos me ferem, nenhum me mata!
Houve tempos, em que os vossos punhais pontiagudos, dilaceravam o meu corpo, mas dele, nem uma gota de sangue jorrava… Via os vossos rostos insatisfeitos… Isso dava-me um poder que não consigo descrever. Foi esse poder, que durante muito tempo me fez acreditar, que não era feita da comum carne dos mortais. Quantos mais punhais craváveis no meu corpo, mais o meu poder transbordava nos vossos olhos. Nunca me perdoastes, por não ter as vossas mãos manchadas com o meu sangue. O meu poder subia, irritantemente…
O meu corpo reagia, petulante, o meu rosto tomava feições de arrogância… Nada foi construído por mim. Tudo nasceu da inconformidade dos vossos olhos, da ausência do meu sangue.
Talvez se tivesse sangrado na primeira facada, talvez não sofresse hoje da ira multiplicada, talvez fosse apenas mais uma mulher na linha do destino, ao ritmo do fado.
Hoje, descobri que estou longe de ser um ser mitológico… Vi as primeiras gotas do meu sangue escorrerem no meu corpo… Não brotaram de nenhuma chaga… Começaram por cair dos olhos…
Sentada em casa, recupero das feridas, longe da minha vida.
Sei que se curarão… Sei que voltarei a não sangrar… Em breve estarei de volta só para ver a insatisfação nos vossos olhos…
Feristes-me! Não me matastes!
Protagonismo?! Nunca o procurei. Vós sempre mo trouxestes de bandeja.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Metáfora do presente
Caminho à noite na floresta.
Os trovões penetram-me estrondosamente, bloqueando-me os pensamentos. Não há lua nem luar… A noite é pesada e escura…
Caminho descalça na floresta… Desbastada pelos incêndios… O vento não agita os ramos, assobiando-me verde esperança. Não agita os ramos, pois não há árvores, nem ninhos… Apenas cinzas…
Não se ouve o uivar dos lobos, nem o canto das corujas… Não há vida…
Continuo a caminhar descalça na floresta, e os meus pés sangram…
A chuva mistura-me as lágrimas… A cada passo os meus pés sangram mais…. A cada passo o nevoeiro adensa-se…
Eu sei porque caminho, só não percebo a tempestade…
Finalmente, a encruzilhada…
Os pés não aguentam o corpo, e caio de joelhos…
Mais um trovão, mais chuva, mais nevoeiro…
Ajoelhada na encruzilhada, limpo as lágrimas, mas não limpo a visão…
A noite escura não pode esperar… Não mais…
A floresta espera a minha escolha….
De joelhos em frente à encruzilhada, tenho mesmo que avançar…
Vou pelo caminho que quero, ou, pelo que sei que tenho que ir?
Os trovões penetram-me estrondosamente, bloqueando-me os pensamentos. Não há lua nem luar… A noite é pesada e escura…
Caminho descalça na floresta… Desbastada pelos incêndios… O vento não agita os ramos, assobiando-me verde esperança. Não agita os ramos, pois não há árvores, nem ninhos… Apenas cinzas…
Não se ouve o uivar dos lobos, nem o canto das corujas… Não há vida…
Continuo a caminhar descalça na floresta, e os meus pés sangram…
A chuva mistura-me as lágrimas… A cada passo os meus pés sangram mais…. A cada passo o nevoeiro adensa-se…
Eu sei porque caminho, só não percebo a tempestade…
Finalmente, a encruzilhada…
Os pés não aguentam o corpo, e caio de joelhos…
Mais um trovão, mais chuva, mais nevoeiro…
Ajoelhada na encruzilhada, limpo as lágrimas, mas não limpo a visão…
A noite escura não pode esperar… Não mais…
A floresta espera a minha escolha….
De joelhos em frente à encruzilhada, tenho mesmo que avançar…
Vou pelo caminho que quero, ou, pelo que sei que tenho que ir?
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
O meu perfil
Há algum tempo atrás, fui convidada a participar num programa de uma rádio local. O objectivo era falar sobre o livro que estou a escrever, “História de uma treinadora que é mulher”. Inevitavelmente, a jornalista acabou por fazer referência a este Blog. Entre muitas perguntas, houve uma em particular, que me chamou a atenção e me surpreendeu…Começou por citar o que eu havia escrito no meu perfil, e desafiou-me a explicar…
Mas não só a jornalista, em conversas, várias pessoas acharam curiosa a descrição, e me perguntavam, onde queria chegar com aquilo…
Pois então…
O Blog chama-se atrás de um nome, e a ideia é mostrar a mulher que vive por trás da treinadora, que no fundo, é exactamente a mesma pessoa, os intransigentes olhos do outros, é que nem se dão ao trabalho de a procurar.
A verdade, é que penso que é esta a imagem que crio nas pessoas. Não penso, crio mesmo.
Arrogante, antipática, com a mania, nariz empinado e não desço do meu pedestal...
Muitos foram os que afirmaram tal perfil antecipado, e inúmeras foram as vezes que ouvi a frase: «não era mesmo esta a imagem que tinha de ti» Explicada a forma como termina a caracterização do meu perfil: «Pelo menos é o que diz quem não me conhece»
Mas para mim, é importante ir mais além…
Porque criei essa imagem, se para a maioria das pessoas, ela não corresponde à realidade?
Claro que tenho que por a hipótese de criar mesmo esta afiguração, tantas são as alusões a este perfil, para mim desconhecido.
Reflecti…
Encontrei duas justificações, que podem servir separadas, embora para mim, elas coexistam.
Iniciei a minha carreira como treinadora aos 19 anos. Talvez inconscientemente, tenha criado uma imagem rígida e severa, para me proteger da minha tenra idade.
Não é, e não foi fácil, criar uma imagem de credibilidade para pais e atletas, com apenas 19 anos… Talvez me tenha refugiado na imagem de arrogante e prepotente, para me defender. Mas se essa imagem existia nessa altura, ela era mesmo, como diz o velho ditado, “para inglês ver”, pois acho que nunca fui tão humilde e carente de ajuda, como naqueles anos iniciais… Nunca ouvi tanto… Nunca tanto procurei ouvir e aprender…
Mas hoje, não sinto necessidade de me proteger. Porque continuarei a manter essa imagem?
Talvez ela se tivesse enraizado em mim e tornado numa imagem de marca… Uma imagem, que não vende definitivamente para as bancadas, mas continua a vender no balneário, curiosamente, junto das que mais sabem que essa imagem é uma mentira… Paradoxo este, que não consigo explicar… apenas sei que funciona.
Depois entra a personalidade própria…
A maioria a nossa sociedade, continua a confundir frontalidade, com arrogância e prepotência…
Não sorrio quando não me apetece sorrir, nem a quem não me apetece sorrir… Não falo com quem não me apetece falar… Não sou simpática só porque deveria ser, não gosto de toda a gente, muito menos à primeira vista… E aqui a lista seria extensa…
Se esta última parte, à qual chamo “personalidade própria”, faz de mim alguém arrogante… então a descrição do meu perfil não é uma brincadeira, eu sou mesmo tudo isso. E sendo assim já não me incomoda…
Sabem a melhor parte? Se assim for, orgulho-me em ser tudo isso que crio à primeira vista, e tudo farei para que nunca mude.
Talvez não seja eu que estou errada, talvez seja a vossa tabela de valores… Talvez sejam os vossos olhos… E aí nada posso fazer… Esse é o vosso trabalho…
A vossa introspecção!
Mas não só a jornalista, em conversas, várias pessoas acharam curiosa a descrição, e me perguntavam, onde queria chegar com aquilo…
Pois então…
O Blog chama-se atrás de um nome, e a ideia é mostrar a mulher que vive por trás da treinadora, que no fundo, é exactamente a mesma pessoa, os intransigentes olhos do outros, é que nem se dão ao trabalho de a procurar.
A verdade, é que penso que é esta a imagem que crio nas pessoas. Não penso, crio mesmo.
Arrogante, antipática, com a mania, nariz empinado e não desço do meu pedestal...
Muitos foram os que afirmaram tal perfil antecipado, e inúmeras foram as vezes que ouvi a frase: «não era mesmo esta a imagem que tinha de ti» Explicada a forma como termina a caracterização do meu perfil: «Pelo menos é o que diz quem não me conhece»
Mas para mim, é importante ir mais além…
Porque criei essa imagem, se para a maioria das pessoas, ela não corresponde à realidade?
Claro que tenho que por a hipótese de criar mesmo esta afiguração, tantas são as alusões a este perfil, para mim desconhecido.
Reflecti…
Encontrei duas justificações, que podem servir separadas, embora para mim, elas coexistam.
Iniciei a minha carreira como treinadora aos 19 anos. Talvez inconscientemente, tenha criado uma imagem rígida e severa, para me proteger da minha tenra idade.
Não é, e não foi fácil, criar uma imagem de credibilidade para pais e atletas, com apenas 19 anos… Talvez me tenha refugiado na imagem de arrogante e prepotente, para me defender. Mas se essa imagem existia nessa altura, ela era mesmo, como diz o velho ditado, “para inglês ver”, pois acho que nunca fui tão humilde e carente de ajuda, como naqueles anos iniciais… Nunca ouvi tanto… Nunca tanto procurei ouvir e aprender…
Mas hoje, não sinto necessidade de me proteger. Porque continuarei a manter essa imagem?
Talvez ela se tivesse enraizado em mim e tornado numa imagem de marca… Uma imagem, que não vende definitivamente para as bancadas, mas continua a vender no balneário, curiosamente, junto das que mais sabem que essa imagem é uma mentira… Paradoxo este, que não consigo explicar… apenas sei que funciona.
Depois entra a personalidade própria…
A maioria a nossa sociedade, continua a confundir frontalidade, com arrogância e prepotência…
Não sorrio quando não me apetece sorrir, nem a quem não me apetece sorrir… Não falo com quem não me apetece falar… Não sou simpática só porque deveria ser, não gosto de toda a gente, muito menos à primeira vista… E aqui a lista seria extensa…
Se esta última parte, à qual chamo “personalidade própria”, faz de mim alguém arrogante… então a descrição do meu perfil não é uma brincadeira, eu sou mesmo tudo isso. E sendo assim já não me incomoda…
Sabem a melhor parte? Se assim for, orgulho-me em ser tudo isso que crio à primeira vista, e tudo farei para que nunca mude.
Talvez não seja eu que estou errada, talvez seja a vossa tabela de valores… Talvez sejam os vossos olhos… E aí nada posso fazer… Esse é o vosso trabalho…
A vossa introspecção!
domingo, 13 de setembro de 2009
Tabatha
Sábado…
Hoje acordei cedo…
Deitada no preto sofá da sala, resta-me um zapping pela televisão, na esperança que algo de interessante me ocupasse, até à hora dos normais mortais acordarem, para mais uma vírgula da vida…
Paro num dos meus canais de eleição, a Fox Life, embora a esta hora, até mesmo aqui, seja difícil encontrar algo de interessante que me distraia. Não está a passar nenhuma das minhas séries predilectas.
«Ao estilo de Tabatha», é o que a programação me reserva. Uma famosa cabeleireira americana tenta dar um rumo sustentável, a salões decadentes que esbarram a falência.
Não me interesso por remodelações em salões de cabeleireiro, mas mesmo assim, colei no ecrã. Tabatha, não pretendia mudar só o aspecto físico dos salões, ou aperfeiçoar as técnicas utilizadas pelos funcionários… queria mudar também a mentalidade de todo o clã do salão, acomodados aos erros e agruras do dia-a-dia. Ela queria vender-lhes vida, vender-lhes uma alma.
Gostei!!!
Gostei ainda mais, por se tratar de uma mulher, que a sociedade define como arrogante, prepotente, inconveniente… Todos lhe reconheciam o talento, mas muito poucos, o modo como se exprimia.
A mim, pareceu-me uma mulher sincera, directa, que não utiliza eufemismos para uma verdade dolorosa, mas verdade.
É de facto algo a que poucos estão habituados, e menos ainda, os que estão aptos a enfrentar tal personalidade.
A meio do programa, Tabatha define uma das funcionárias: sem um sorriso na cara, enumerou todos os seus pontos fracos (concordei com tudo), a funcionária, essa não aguentou, e correu para outro compartimento do salão aos prantos. Atrás dela seguiu uma vasta comitiva de consolo.
Todos demonstravam pena da funcionária, repetindo incessantemente: «coitadinha», toda a equipa a consolava, como se uma catástrofe tivesse abalado todo o seu mundo e posto em causa toda a sua vida. Como se ela, não tivesse apenas ouvido um rol de verdades, que alguém já deveria ter feito, em prol do desenvolvimento sustentável da empresa.
Ao mesmo tempo, recriminavam a cruel, a arrogante e fria Tabatha.
O monstro que tinha dito a verdade, no seu estado mais puro.
Fez-me pensar…
Decididamente a nossa sociedade não está preparada para ouvir as verdades dolorosas, muito menos de um modo tão frontal e directo. Catalogando de imediato os emissores, de arrogantes e prepotentes, afastando-os… preferindo a seu lado, as mentes subjugadas que os acalentam com omissões.
Esta é uma sociedade, que prefere sempre tomar partido, da parte frágil que chora, mesmo que a razão não acompanhe as lágrimas. A sociedade dos pobres coitados… Que protege a fragilidade da personalidade e a inércia.
Mais chocante ainda, é a não aceitação da personalidade diferente, da verdadeira, da razão… sendo logo rotulada de adjectivos poucos dignificantes e construtivos.
Permitimos que os fracos chorem, no lugar de enfrentar a verdade e dar passos em frente, e crucificamos o emissor da pura mensagem, só porque não coloca um sorriso nos lábios, não usa um discurso político, ou lhe conta essa mesma verdade chorando também, e fazendo-lhe crer, que também para ela aquela conversa está a ser dura.
Sim, há pessoas arrogantes…
Mas parem e pensem, no que é realmente a arrogância. Porque, a barreira com a frontalidade é ténue, mas existe…
Tabatha, como te compreendo...
Hoje acordei cedo…
Deitada no preto sofá da sala, resta-me um zapping pela televisão, na esperança que algo de interessante me ocupasse, até à hora dos normais mortais acordarem, para mais uma vírgula da vida…
Paro num dos meus canais de eleição, a Fox Life, embora a esta hora, até mesmo aqui, seja difícil encontrar algo de interessante que me distraia. Não está a passar nenhuma das minhas séries predilectas.
«Ao estilo de Tabatha», é o que a programação me reserva. Uma famosa cabeleireira americana tenta dar um rumo sustentável, a salões decadentes que esbarram a falência.
Não me interesso por remodelações em salões de cabeleireiro, mas mesmo assim, colei no ecrã. Tabatha, não pretendia mudar só o aspecto físico dos salões, ou aperfeiçoar as técnicas utilizadas pelos funcionários… queria mudar também a mentalidade de todo o clã do salão, acomodados aos erros e agruras do dia-a-dia. Ela queria vender-lhes vida, vender-lhes uma alma.
Gostei!!!
Gostei ainda mais, por se tratar de uma mulher, que a sociedade define como arrogante, prepotente, inconveniente… Todos lhe reconheciam o talento, mas muito poucos, o modo como se exprimia.
A mim, pareceu-me uma mulher sincera, directa, que não utiliza eufemismos para uma verdade dolorosa, mas verdade.
É de facto algo a que poucos estão habituados, e menos ainda, os que estão aptos a enfrentar tal personalidade.
A meio do programa, Tabatha define uma das funcionárias: sem um sorriso na cara, enumerou todos os seus pontos fracos (concordei com tudo), a funcionária, essa não aguentou, e correu para outro compartimento do salão aos prantos. Atrás dela seguiu uma vasta comitiva de consolo.
Todos demonstravam pena da funcionária, repetindo incessantemente: «coitadinha», toda a equipa a consolava, como se uma catástrofe tivesse abalado todo o seu mundo e posto em causa toda a sua vida. Como se ela, não tivesse apenas ouvido um rol de verdades, que alguém já deveria ter feito, em prol do desenvolvimento sustentável da empresa.
Ao mesmo tempo, recriminavam a cruel, a arrogante e fria Tabatha.
O monstro que tinha dito a verdade, no seu estado mais puro.
Fez-me pensar…
Decididamente a nossa sociedade não está preparada para ouvir as verdades dolorosas, muito menos de um modo tão frontal e directo. Catalogando de imediato os emissores, de arrogantes e prepotentes, afastando-os… preferindo a seu lado, as mentes subjugadas que os acalentam com omissões.
Esta é uma sociedade, que prefere sempre tomar partido, da parte frágil que chora, mesmo que a razão não acompanhe as lágrimas. A sociedade dos pobres coitados… Que protege a fragilidade da personalidade e a inércia.
Mais chocante ainda, é a não aceitação da personalidade diferente, da verdadeira, da razão… sendo logo rotulada de adjectivos poucos dignificantes e construtivos.
Permitimos que os fracos chorem, no lugar de enfrentar a verdade e dar passos em frente, e crucificamos o emissor da pura mensagem, só porque não coloca um sorriso nos lábios, não usa um discurso político, ou lhe conta essa mesma verdade chorando também, e fazendo-lhe crer, que também para ela aquela conversa está a ser dura.
Sim, há pessoas arrogantes…
Mas parem e pensem, no que é realmente a arrogância. Porque, a barreira com a frontalidade é ténue, mas existe…
Tabatha, como te compreendo...
domingo, 9 de agosto de 2009
Rituais
1 de Agosto de 2009.
Daqui a rigorosamente um mês, começará a minha época. A força já me invade, os objectivos já me aspergem na cabeça, que gira em volta de esquemas tácticos.
Sinto saudades do som da bola a bater, de caminhar de um lado para o outro do campo, incentivando, corrigindo, muitas vezes bramindo. Sinto saudades do jogo! Sinto essencialmente saudades do jogo… É lá que mais me sinto florescente, vibrante… Amo o treino, mas é no jogo que me sinto viva… Sinto-me uma criança num parque de diversões, deliciada com cada momento, degustando cada passo… A palestra no balneário… O cumprimento dos árbitros, ser chamada à mesa para dar o 5… Tudo é fascinante… E o fascínio é o mesmo todas as semanas… As últimas palavras no banco… O grito… O cumprimento das atletas que vão entrar em campo, e depois uma a uma das que ficam no banco, no fim a minha equipa técnica… São os mesmos rituais todas as semanas, mas não perdem o charme, o significado… Depois começa o inesperado… O árbitro inicia o jogo, e a partir daí…tudo se pode esperar… Sinto-me crescer… Vibrar… Sofrer… Às vezes não me reconheço, porque quando a paixão pelo jogo atinge determinados limites, aparece uma mulher, que eu mesma tenho dificuldades em reconhecer… Como amo todos estes rituais… Como amo estar em campo… os descontos de tempo, as costas viradas ao jogo, os monólogos com o céu ou as paredes, as substituições, os berros para dentro de campo (sim, berros, pois a minha vozinha de mulher, não me ajuda na comunicação para dentro do campo) … Escrevo e sinto um arrepio, como se estivesse agora em campo, sempre de pé, de marcador na mão a gesticular… Hum… As conversas com os árbitros… que saudades das nossas conversas ao longo do jogo… Não são na sua maioria amistosas, não falamos de bons restaurantes… mas eu adoro-as. …
Mas estes rituais começam muito antes, começam ainda em casa…
Gosto de estar sozinha antes dos jogos, gosto de ouvir música…
Em seguida os preparativos, é preciso trajar-me a rigor. Sempre igual. Fato de treino do clube, pólo do clube, cabelo sempre preso.
É aqui que entra a curiosidade de muitos. Várias vezes tenho sido questionada do porquê de ser a única a trajar sempre com fato completo, e o porquê do cabelo sempre preso, imagem de marca de vários anos.
Pois bem, esta é uma explicação, que em nada vem de encontro com a igualdade que tanto venho defendendo. Embora, enorme seja o meu orgulho em ser mulher, é precisamente isso que pretendo disfarçar em campo. Detestaria que alguém no final do jogo, comentasse o modelo das minhas calças, ou o corte do meu cabelo… Ali não sou mulher… Sou treinadora… E os treinadores são como os anjos: não têm sexo.
Daqui a rigorosamente um mês, começará a minha época. A força já me invade, os objectivos já me aspergem na cabeça, que gira em volta de esquemas tácticos.
Sinto saudades do som da bola a bater, de caminhar de um lado para o outro do campo, incentivando, corrigindo, muitas vezes bramindo. Sinto saudades do jogo! Sinto essencialmente saudades do jogo… É lá que mais me sinto florescente, vibrante… Amo o treino, mas é no jogo que me sinto viva… Sinto-me uma criança num parque de diversões, deliciada com cada momento, degustando cada passo… A palestra no balneário… O cumprimento dos árbitros, ser chamada à mesa para dar o 5… Tudo é fascinante… E o fascínio é o mesmo todas as semanas… As últimas palavras no banco… O grito… O cumprimento das atletas que vão entrar em campo, e depois uma a uma das que ficam no banco, no fim a minha equipa técnica… São os mesmos rituais todas as semanas, mas não perdem o charme, o significado… Depois começa o inesperado… O árbitro inicia o jogo, e a partir daí…tudo se pode esperar… Sinto-me crescer… Vibrar… Sofrer… Às vezes não me reconheço, porque quando a paixão pelo jogo atinge determinados limites, aparece uma mulher, que eu mesma tenho dificuldades em reconhecer… Como amo todos estes rituais… Como amo estar em campo… os descontos de tempo, as costas viradas ao jogo, os monólogos com o céu ou as paredes, as substituições, os berros para dentro de campo (sim, berros, pois a minha vozinha de mulher, não me ajuda na comunicação para dentro do campo) … Escrevo e sinto um arrepio, como se estivesse agora em campo, sempre de pé, de marcador na mão a gesticular… Hum… As conversas com os árbitros… que saudades das nossas conversas ao longo do jogo… Não são na sua maioria amistosas, não falamos de bons restaurantes… mas eu adoro-as. …
Mas estes rituais começam muito antes, começam ainda em casa…
Gosto de estar sozinha antes dos jogos, gosto de ouvir música…
Em seguida os preparativos, é preciso trajar-me a rigor. Sempre igual. Fato de treino do clube, pólo do clube, cabelo sempre preso.
É aqui que entra a curiosidade de muitos. Várias vezes tenho sido questionada do porquê de ser a única a trajar sempre com fato completo, e o porquê do cabelo sempre preso, imagem de marca de vários anos.
Pois bem, esta é uma explicação, que em nada vem de encontro com a igualdade que tanto venho defendendo. Embora, enorme seja o meu orgulho em ser mulher, é precisamente isso que pretendo disfarçar em campo. Detestaria que alguém no final do jogo, comentasse o modelo das minhas calças, ou o corte do meu cabelo… Ali não sou mulher… Sou treinadora… E os treinadores são como os anjos: não têm sexo.
domingo, 2 de agosto de 2009
Mourinha
Muitos são ao longo dos anos, os que me têm perguntado, a origem da alcunha Mourinha, com que me tratam as minhas atletas e alguns adeptos. É este o nome que se houve gritar nas apresentações, que circula nos fóruns, nas bancadas, em conversas… e há ainda a famigerada música, interpretada pela equipa, a cada título conquistado…
Pois bem… Podia começar, ao jeito dos contos infantis, com um: “Foi há muito, muito tempo…”
Mourinha, deriva como sugere, da analogia a esse ícone de treinador: José Mourinho.
Era ainda o Mourinho treinador do FC Porto, bem nos seus inícios, quando a comunicação social e muitos adeptos, começam a falar de um termo, hoje muito vulgar, o treino psicológico.
Os média deliciavam-se e deliciavam-nos, com os famosos “Mind Games”, do carismático treinador…
Bem longe do mediatismo atribuído ao Mourinho, a equipa identificava alguns dos seus jogos psicológicos, utilizados por mim. Tudo isto, claro, à escala de uma treinadora menos experiente, de um campeonato menos exigente, mas sobretudo de um mundo muito mais esquecido, e menos mediático.
No balneário, começavam a surgir então, as comparações com o Mourinho. Dado que as preocupações, ao nível do treino psicológico eram tão vagas, era fácil, alguém fazer-se notar.
A alcunha carimba-se com um episódio, que é para mim um misto, de boas e dolorosas recordações.
No fim-de-semana anterior à minha primeira final distrital, disputávamos um jogo, que só servia para cumprir calendário, pois já estavam encontradas as duas finalistas. Curiosamente, este jogo, opunha as mesmas equipas, que no fim-de-semana seguinte, disputariam o título distrital.
Para esse jogo, o presidente do Concelho de Arbitragem Distrital (CAD) de Braga, nomeou um árbitro para apitar o encontro. Tudo normal, não fosse o presidente do CAD, o árbitro e o treinador da equipa adversária, a mesma pessoa!!!
Resultado: o jogo não terminou e eu havia sido expulsa…
Imagino que agora todos esperavam ler as ocorrências daquela partida, talvez isso fosse a parte mais interessante deste texto. Lamento, mas não vou contar… Não sei quem vai ler este texto. Pode ser lido por crianças, ou mais tarde, pelos meus próprios filhos… Acontece, que não encontro adjectivos para contar esta história, que possam ser lidos por crianças, ou mentes mais conservadoras e pudicas.
Desse jogo guardo tudo…
Lembro-me que chorei imenso em casa, pois aos 21 anos tinha alcançado a minha primeira final Distrital, e não a iria ver do banco…
Mesmo consciente da armadilha preparada, culpei-me por essa ausência. Eu e a minha ingenuidade, própria de início de carreira, permitiram que a verdade desportiva não imperasse, e aqui a patinha, ia mesmo ver a final da bancada.
Foi a minha primeira grande lição!
Chegou o dia da ansiada final.
Apenas me foi permitido dar a palestra no balneário… Lembro-me tão bem dos disparates que lhes disse, para as tranquilizar… Foi a minha primeira grande palestra, e para mim, das melhores que já fiz…
Dias, ou semanas antes, uma polémica arbitragem que prejudicou o FC Porto, levou o Mourinho a proferir a seguinte frase: «Em condições normais, seríamos campeões, em condições anormais, também seremos campeões.»
Foi com essa frase, que concluí a minha palestra…
Em uníssono, a equipa levanta-se, e abraçando-me, ouviu-se: “Mourinha”
Foi assim que tudo começou…
Depois veio a música, com que as minhas compositoras improvisadas, me presentearam: “Lá, lá, lá… Mourinha… Lá, lá, lá… Guerreira… Lá, lá, lá…. Amiga…. Eterna e verdadeira…” Esta é a ode, com que me presenteiam a cada conquista, a cada título…
O nome passou do balneário para as bancadas, das bancadas para os sites e fóruns… e assim nasceu a Mourinha.
Fenómeno que vai desaparecendo, vou deixando cada vez mais de ser a Mourinha, para me tornar a Patrícia Atilano. Agrada-me! Embora esta alcunha me tenha acompanhado, em muitos dos dias mais felizes da minha vida.
Pois bem… Podia começar, ao jeito dos contos infantis, com um: “Foi há muito, muito tempo…”
Mourinha, deriva como sugere, da analogia a esse ícone de treinador: José Mourinho.
Era ainda o Mourinho treinador do FC Porto, bem nos seus inícios, quando a comunicação social e muitos adeptos, começam a falar de um termo, hoje muito vulgar, o treino psicológico.
Os média deliciavam-se e deliciavam-nos, com os famosos “Mind Games”, do carismático treinador…
Bem longe do mediatismo atribuído ao Mourinho, a equipa identificava alguns dos seus jogos psicológicos, utilizados por mim. Tudo isto, claro, à escala de uma treinadora menos experiente, de um campeonato menos exigente, mas sobretudo de um mundo muito mais esquecido, e menos mediático.
No balneário, começavam a surgir então, as comparações com o Mourinho. Dado que as preocupações, ao nível do treino psicológico eram tão vagas, era fácil, alguém fazer-se notar.
A alcunha carimba-se com um episódio, que é para mim um misto, de boas e dolorosas recordações.
No fim-de-semana anterior à minha primeira final distrital, disputávamos um jogo, que só servia para cumprir calendário, pois já estavam encontradas as duas finalistas. Curiosamente, este jogo, opunha as mesmas equipas, que no fim-de-semana seguinte, disputariam o título distrital.
Para esse jogo, o presidente do Concelho de Arbitragem Distrital (CAD) de Braga, nomeou um árbitro para apitar o encontro. Tudo normal, não fosse o presidente do CAD, o árbitro e o treinador da equipa adversária, a mesma pessoa!!!
Resultado: o jogo não terminou e eu havia sido expulsa…
Imagino que agora todos esperavam ler as ocorrências daquela partida, talvez isso fosse a parte mais interessante deste texto. Lamento, mas não vou contar… Não sei quem vai ler este texto. Pode ser lido por crianças, ou mais tarde, pelos meus próprios filhos… Acontece, que não encontro adjectivos para contar esta história, que possam ser lidos por crianças, ou mentes mais conservadoras e pudicas.
Desse jogo guardo tudo…
Lembro-me que chorei imenso em casa, pois aos 21 anos tinha alcançado a minha primeira final Distrital, e não a iria ver do banco…
Mesmo consciente da armadilha preparada, culpei-me por essa ausência. Eu e a minha ingenuidade, própria de início de carreira, permitiram que a verdade desportiva não imperasse, e aqui a patinha, ia mesmo ver a final da bancada.
Foi a minha primeira grande lição!
Chegou o dia da ansiada final.
Apenas me foi permitido dar a palestra no balneário… Lembro-me tão bem dos disparates que lhes disse, para as tranquilizar… Foi a minha primeira grande palestra, e para mim, das melhores que já fiz…
Dias, ou semanas antes, uma polémica arbitragem que prejudicou o FC Porto, levou o Mourinho a proferir a seguinte frase: «Em condições normais, seríamos campeões, em condições anormais, também seremos campeões.»
Foi com essa frase, que concluí a minha palestra…
Em uníssono, a equipa levanta-se, e abraçando-me, ouviu-se: “Mourinha”
Foi assim que tudo começou…
Depois veio a música, com que as minhas compositoras improvisadas, me presentearam: “Lá, lá, lá… Mourinha… Lá, lá, lá… Guerreira… Lá, lá, lá…. Amiga…. Eterna e verdadeira…” Esta é a ode, com que me presenteiam a cada conquista, a cada título…
O nome passou do balneário para as bancadas, das bancadas para os sites e fóruns… e assim nasceu a Mourinha.
Fenómeno que vai desaparecendo, vou deixando cada vez mais de ser a Mourinha, para me tornar a Patrícia Atilano. Agrada-me! Embora esta alcunha me tenha acompanhado, em muitos dos dias mais felizes da minha vida.
Desconjugação
As pessoas...
O tempo precisa de fios condutores,
De mitos
De heróis
De estrelas
E neles rabisca uma vida.
Uma mão arrasta-me para o culto,
Ameaçadora!
A outra tira-me a amordaça
E lança-me na nascente de um rio.
O palácio do dogma está a arder...
Eu,
Aqueço-me nas suas brasas!
Sou jovem demais para ser velha.
O tempo precisa de fios condutores,
De mitos
De heróis
De estrelas
E neles rabisca uma vida.
Uma mão arrasta-me para o culto,
Ameaçadora!
A outra tira-me a amordaça
E lança-me na nascente de um rio.
O palácio do dogma está a arder...
Eu,
Aqueço-me nas suas brasas!
Sou jovem demais para ser velha.
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